A Mulher ingênua como presa

Sua natureza selvagem já farejou uma situação em um relacionamento que não será para você bom, de certa forma mortal, mas a sua psique ingênua descartou essa sabedoria interior.

Nós todos nascemos anlagen, como o potencial no núcleo de uma célula: em biologia, a Anlage é a parte da célula caracterizada como “aquilo que se tornará”. Dentro da Anlage está a substância fundamental que, com o tempo, irá se desenvolver fazendo com que nos tornemos uma pessoa inteira.

12341589_657883027686526_2607513417837150832_nPortanto, nossas vidas, enquanto mulheres, consistem em acelerar a Anlage.

No início das nossas vidas, nosso ponto de vista feminino é muito ingênuo, o que quer dizer que nossa compreensão emocional do que está oculto é muito tênue. No entanto, é assim que todas nós começamos. Somos ingênuas e nos convencemos a entrar em situações muito confusas. Não ser iniciada nos detalhes dessas questões significa estar num estágio da nossa vida em que somos propensas a perceber apenas o que está às claras.

O problema é que o ego deseja sentir-se fantástico, enquanto um anseio pelo paradisíaco, quando aliado à ingenuidade, não nos deixa realizadas, mas nos transforma, sim, em alvo para o predador.

Do ponto de vista psicológico, as meninas e os meninos são como que dormentes para o fato de que eles próprios possam ser as presas. Embora às vezes nos pareça que a vida seria muito mais fácil e menos dolorida se todos os seres humanos nascessem totalmente em estado de alerta, isso não acontece.

Entre os lobos, quando a mãe deixa os filhotes para ir caçar, os pequenos tentam acompanhá-la para fora da toca, pela trilha abaixo. A mãe rosna para eles, investe contra eles e apavora os filhotes até que eles voltem atabalhoadamente para dentro da toca. A mãe sabe que os filhotes ainda não têm condição de pesar e avaliar outras criaturas. Eles não sabem quem é um predador e quem não é. Com o tempo, ela irá ensiná-los, com rigidez e eficácia.

Quando ingênuas somos jogadas aos nossos próprios processos mentais e somos totalmente ignorantes quanto ao aspecto assassino da sua própria psique, sendo seduzidas pelos prazeres do ego. E por que não? Todas nós queremos tudo maravilhoso. Toda mulher quer montar um cavalo enfeitado com sinos e sair cavalgando pelos campos sem fim e pela floresta sensual. Todos os seres humanos querem atingir um paraíso prematuro aqui na terra. O problema é que o ego deseja sentir-se fantástico, enquanto um anseio pelo paradisíaco, quando aliado à ingenuidade, não nos deixa realizadas, mas nos transforma, sim, em alvo para o predador.

Essa programação na realidade é decidida quando as meninas são muito novas, geralmente antes dos cinco anos de idade. Elas são ensinadas a não enxergar e, em vez disso, a “dourar” todo tipo de esquisitice, quer seja agradável quer não.

Esse treinamento básico para que as mulheres “sejam boazinhas” faz com que elas ignorem sua intuição. Nesse sentido, elas de fato recebem lições específicas para que se submetam ao predador. Imaginem uma loba ensinando seus filhotes a “serem bonzinhos” diante de uma doninha enfurecida ou de uma astuciosa cascavel.

Digamos, por exemplo, que uma mulher ingênua insista em escolher mal seus parceiros. Em algum ponto da sua mente ela sabe que esse modelo de comportamento é infrutífero, que deveria parar e seguir valores diferentes. Muitas vezes ela até sabe como deve prosseguir. No entanto, há algo de irresistível, uma espécie de trama pessoal hipnótico, que faz com que continue seguindo o padrão destrutivo. Na maioria dos casos, a mulher sente que, se apenas se mantiver fiel ao velho modelo um pouco mais, ora, sem dúvida a sensação paradisíaca que procura aparecerá no próximo batimento do seu coração.

Num outro extremo, uma mulher envolvida numa dependência química tem com o máximo de nitidez, no fundo da mente, um conjunto de insigths que lhe dizem, “Não! De jeito nenhum! Isso é ruim para a cabeça e ruim para o corpo. Nós nos recusamos a continuar.” No entanto, o desejo de encontrar o paraíso atrai a mulher para o traficante das viagens psíquicas.

Qualquer que seja o dilema em que se encontre a mulher, as vozes na sua psique continuam a lhe recomendar consciência e sensatez nas suas escolhas. São aquelas vozes do fundo da mente que sussurram as verdades, nossa sábia interior,  que uma mulher pode desejar evitar uma vez que elas acabem com sua fantasia do Paraíso Encontrado.

Enquanto a mulher for forçada a acreditar que é indefesa e/ou for treinada para não registrar no consciente o que sabe ser verdade, os impulsos e dons femininos da sua psique continuarão a ser erradicados. Em vez de viver livremente, ela começa a viver falsamente. A promessa enganosa do predador diz que a mulher será rainha de algum modo, quando de fato o que se planeja é seu assassinato. Há uma saída para evitar isso tudo, mas é preciso que se tenha a chave.

tumblr_mr1hwiaL8U1r7tmawo1_500A chave é tanto uma permissão quanto um apoio para que ela conheça os segredos mais profundos, mais obscuros da psique, nesse caso aquilo que degrada e destrói estupidamente o potencial de uma mulher. Com a chave a mulher abre as portas de sua psique ferida e resgata a sua menina ingênua.

A mulher ingênua concorda em permanecer “na ignorância”. Mulheres fáceis de serem logradas e aquelas com instintos fragilizados ainda se voltam, como as flores, para o lado em que o sol se apresenta. A mulher ingênua ou magoada pode então, com extrema facilidade, ser seduzida com promessas de conforto, diversão e arte, promessas de inúmeros prazeres, de uma ascensão social aos olhos da família, das colegas, ou de maior segurança, amor eterno ou sexo ardente.

Proibir uma mulher de usar a chave que leva à consciência é o mesmo que lhe arrancar a Mulher Selvagem, seu instinto natural de curiosidade e sua descoberta do que “se esconde por baixo”. Sem o conhecimento selvagem, a mulher está desprovida de proteção adequada.

Pensadores no campo da psicologia, como Freud e Bettelheim, interpretaram a retirada dessa chave como uma punição psicológica pela curiosidade sexual das mulheres. Foi atribuída à curiosidade feminina uma conotação negativa, enquanto a masculina era chamada de curiosidade investigativa. As mulheres eram abelhudas, enquanto os homens eram indagadores. Na realidade, a trivialização da curiosidade das mulheres, que faz com que elas se assemelhem mais a espias chatas e maçantes, representa uma negação do insight, da intuição e dos pressentimentos das mulheres. Ela nega todos os seus sentidos. Ela tenta atacar sua força fundamental.

As mulheres que ainda não abriram a porta proibida são as mulheres-sombras da psique individual feminina. A contrações e fisgadas nas profundezas da mente de uma mulher é que fazem com que ela se lembre, que lhe restituem a atitude correta para com o que é importante. Encontrar a mínima porta para se inserir uma chave é fundamental.

No passado, as portas eram feitas em sua maioria de pedra, mas também de madeira. Acreditava-se que o espírito da pedra ou da madeira permanecia na porta, e ele também era convocado a servir de guardião do aposento. Nos primeiros tempos, havia mais portas nos túmulos do que nas casas, e a própria imagem da porta já indicava que alguma coisa de valor espiritual jazia ali dentro, ou que ali dentro havia algo que devia ser mantido preso.

Uma porta em nossa mente é uma barreira psíquica, uma espécie de guarda colocado à frente do segredo. Esse guarda que reside na pedra ou na madeira nos lembra novamente a reputação do predador como mago — uma força psíquica que nos envolve e confunde como se por mágica, impedindo que tomemos conhecimento do que já sabemos. As mulheres reforçam essa barreira ou porta quando caem num tipo de estímulo negativo que as adverte para não pensar ou mergulhar fundo demais, pois “você pode ter uma surpresa desagradável”. Para derrubar esse obstáculo, é preciso que se aplique o antídoto mágico correto.

As perguntas são as chaves que fazem com que as portas secretas da psique se escancarem, o Antídoto correto.

A natureza ingênua começa a amadurecer, a questionar. “O que está por trás do visível? O que faz com que aquela sombra cresça na parede?” A natureza jovem e ingênua começa a compreender que, se existe algo de secreto, se existe algo de sombrio, se existe algo de proibido, é preciso que ele seja examinado. Aquelas que quiserem desenvolver a consciência perseguem tudo que fica por trás do que é facilmente observável: o gorjeio invisível, a janela suja, a porta que range, uma fresta de luz por baixo da soleira. Elas perseguem esses mistérios até que a substância da questão lhes seja revelada.

A capacidade de suportar o que se vê é a visão vital que faz com que a mulher volte a sua natureza profunda, para ali receber sustentação em todos os pensamentos, sentimentos e atos.

pinalcatheaTexto montado com trechos do livro Mulheres que correm com os lobos de Clarissa Pinkola Estés

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Tamaris Fontanella

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