Benzer, curar, cuidar: sobre o ofício da benzedeira

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Uma lembrança bonita de infância que tenho é de minha avó benzendo os olhos dos netos, sempre que algum mal nos atacava. A cantiga e o gesto eram sempre os mesmos, fosse cisco, fosse terçol, fosse inflamação: os dedos girando em espiral sobre os olhos enquanto cantava

“Santa Luzia passou por aqui com seu cavalinho comendo capim…”.

Não só fui benzida por minha avó como por algumas senhoras do bairro, todas tinham pequenos jardins em casa de onde saíam os seus instrumentos mágicos de cura.

O universo das benzedeiras, dessas mulheres detentoras do conhecimento das ervas que me curaram muitas vezes, sempre foi encantador para mim.

Achava gozada a toada quase inaudível e os gestos com os galhinhos, normalmente de arruda, e o diagnóstico de mal olhado ao final de tudo…  com meus olhos infantis, não conseguia perceber o tamanho da conexão com a sabedoria da terra que essas mulheres tinham, além do amor que distribuíam em forma de cuidado.

Cuidado prestado a comunidades inteiras, muitas vezes.

Uma das causas da grande procura ainda hoje pelas benzedeiras, além da facilidade de acesso a elas (lembrando que muitas comunidades não são alcançadas pelo sistema de saúde oficial), é a oportunidade de diálogo que muitas vezes nos falta num atendimento médico. O nosso sistema de saúde oficial é fundamentado no patriarcado e no positivismo, o qual necessita fragmentar para explicar e oferecer respostas universais, tornando a relação médico-paciente fria e orientada apenas por protocolos de atendimento. Em contraposição a isto, a benzedeira muitas vezes abre as portas da própria casa para receber e tem a dedicação de ouvir a pessoa que se chega para pedir ajuda, de sentir o que a pessoa realmente precisa. Ela quer ser curada, mas que tipo de cura precisa? É um remédio de fato? Uma palavra? Um toque amoroso? Talvez reconhecer e se reconectar com o que há de sagrado em si?

Essas mulheres mantêm vivo o arquétipo da mulher curadora e estão presentes em muitos lugares, recebendo ou não o nome de benzedeiras.

São aquelas que conhecem os mistérios da natureza, que compreendem os ciclos da vida, que reverenciam o sagrado que há em tudo e em todos.

Seus conhecimentos são transmitidos através da oralidade, que é uma forma de reverenciar e afirmar o saber ancestral, porém permitindo que quem o recebe possa viver a sua experiência, aprender através dela e disseminar o aprendido, mantendo o conhecimento vivo, dinâmico.

Suas palavras (e gestos) de fé curam. Quem pode afirmar que a força do conforto de “três palavras de Deus e da Virgem Maria” não são curativas para o sujeito que as ouve e nelas crê?

Mas, pensando além do cuidado, há um profundo respeito na prática.

Respeito não apenas às divindades que auxiliam as benzedeiras em seu ofício, porém à pessoa que lhes pede amparo, à sua individualidade, ao seu corpo, às suas emoções… E respeito consigo e seus próprios ciclos também.

A curadora possui também seus próprios cuidados, pois compreende que apenas (se) doar não é saudável para o equilíbrio das forças naturais. Reconhece também seus próprios limites, sabendo que nem tudo pode ser curado por ela (há mal para médico curar e mal que só a benzedeira tira…). Isso é também um exercício de humildade e sabedoria, já que é importante saber qual o nosso papel em determinadas ocasiões, a hora de agir e a ho

ra em que se recolher é o melhor para assegurar a harmonia dos ciclos de cada um.

O universo das benzedeiras é mais profundo do que parece à primeira vista. Não se trata apenas de magia e fé, mas de uma íntima relação com a sabedoria da Grande Mãe, de resgate da nossa conexão com nossas curadoras internas.

Crystiane Castro

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